O Muro chega ao MON

A favela do Jacarezinho foi durante muito tempo uma das regiões mais violentas do Rio de Janeiro até sua pacificação em outubro de 2012. Antes disso, porém, 80 meninos e meninas de 8 a 17 anos foram instigados a usar a criatividade para mostrar um novo olhar de dentro da favela. O resultado da visão desses jovens fotógrafos é “O Muro”, exposição interativa que permite ao visitante enxergar a comunidade através dos olhos de quem vive nela. Depois de passar pelo Rio e Belo Horizonte, a mostra chega a Curitiba. Ficará no Museu Oscar Niemeyer (MON) de 5 de abril a 29 de junho.

“O Muro” é resultado do projeto “Eu Sou”, que desde 2003 desenvolve um trabalho de artes plásticas com crianças e adolescentes do Jacarezinho. A proposta para montar a instalação era que as crianças fotografassem o lugar onde moram para mostrá-lo a pessoas que não o conhecem, seguindo a estética artística à qual foram apresentadas. O objetivo era possibilitar aos jovens o reconhecimento de um olhar menos contaminado pelo preconceito e o desprezo pela própria origem e o lugar onde vivem.

Antes de empunharem as câmeras e retratarem o universo de origem, as crianças participaram de oficinas de sensibilização em que foram estimuladas a passar por um processo de transformação do olhar sobre aquele ambiente. Do percusso, com espaços e detalhes inusitados e, às vezes inóspitos, o que se vê é uma estética tão pessoal quanto extraordinária, além da tentativa de transpor o muro social.

O trabalhou resultou em mais de 200 fotos, das quais 80 estão expostas. Registros de flores, passarinhos e árvores se misturam à fotos que mostram crakeiros e lixo, retratando parte do cotidiano das crianças na comunidade. O resultado surpreende e emociona. Através de 80 olhos que expõem a obra produzida por cada jovem fotógrafo, o muro pretende conduzir o público a uma viagem mais do que visual.

“Ajudamos as crianças a terem um olhar estético sobre o que já existe e a transformar em arte o que elas veem todos os dias. Agora mostramos ao asfalto esse novo olhar da comunidade, outros ângulos, novas perspectivas”, avalia o artista plástico e arte-educador Helio Rodrigues. A ideia é que a instalação também possa inspirar reflexões sobre o próprio olhar do público para o cotidiano na grande cidade.

O Muro - Construído em 80 blocos, “O Muro” guarda no interior os olhares das crianças (fotos), mas seus olhos estarão fotografados do lado de fora, com o intuito de humanizar ainda mais a instalação e instigar a curiosidade das pessoas de olhar através de um buraco (feito na íris) e descobrir o que há do outro lado. A principal finalidade do projeto, como explica Helio Rodrigues, é reconstruir a identidade através da arte e desconstruir “muros” que existem na sociedade, ampliando opiniões, reduzindo preconceitos e aceitando as diversidades.

“A arte não aceita limites, é um meio para transformar vidas. Atravessa, transgride, rompe ou, até mesmo, absorve os obstáculos e deles faz ferramenta”, analisa o artista plástico.

A exposição já esteve em cartaz no Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Depois de Curitiba, segue para outras capitais. A exposição tem o patrocínio do Laboratório Farmoquímica (FQM) e apoio do Ministério da Cultura através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Rio de Janeiro.

Workshop no Museu - Para o público entender um pouco mais sobre o universo do projeto, haverá o workshop no Museu Oscar Niemeyer ministrado pelo artista plástico e arte-educador Helio Rodrigues. Na ocasião, o público irá interagir com conceitos, elementos e materiais, os mesmos usados pelos jovens da Favela do Jacarezinho, e, a partir dessa experiência, repensar o próprio olhar por meio de novas perspectivas. Durante o workshop, os participantes serão estimulados a criar suas próprias obras.

O visitante ainda poderá acompanhar palestras com Helio Rodrigues para entender melhor como foi erguido “O Muro”. Os encontros pretendem aprofundar o diálogo com o público e alertar sobre a inclusão social de jovens da favela na sociedade. Idealizador do projeto, Helio apresentará a palestra “Estéticas aprisionadas” e vai contar um pouco de sua experiência com crianças e moradores da comunidade do Jacarezinho, que resultou no trabalho. “Quero mostrar a importância da arte na vida dos indivíduos, objetivando o enriquecimento do pensar e a construção de identidades”, diz.

O workshop no MON será realizado dia 8 de abril, das 16 às 18 horas.

Sobre Helio Rodrigues - Aos 20 anos, em 1969, fez sua primeira exposição individual e iniciou sua participação no mercado de arte brasileiro. No ano seguinte fundou o Atelier de Artes Helio Rodrigues, escola de artes para crianças e adultos. Professor de artes e arte-educação em várias instituições de ensino no Brasil, é autor do projeto social “EU SOU” desenvolvido desde 2003, que busca a reconstrução da identidade através da arte de crianças e jovens em situação de risco. Em 1987 iniciou sua trajetória no mercado internacional. Helio Rodrigues participou de 37 exposições individuais e 86 coletivas, salões, leilões e feiras de arte. É autor dos livros “Jogos sem Regras” e “Vertigens do Vazio”.

Publicado em 21/março/2014